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Camarão marinho no interior de SP: projeto avança contra doença e quer expandir o cultivo longe do oceano

Camarão marinho no interior de SP: projeto avança contra doença e quer expandir o cultivo Criar camarão marinho a quilômetros de distância do oceano pode ...

Camarão marinho no interior de SP: projeto avança contra doença e quer expandir o cultivo longe do oceano
Camarão marinho no interior de SP: projeto avança contra doença e quer expandir o cultivo longe do oceano (Foto: Reprodução)

Camarão marinho no interior de SP: projeto avança contra doença e quer expandir o cultivo Criar camarão marinho a quilômetros de distância do oceano pode parecer improvável, mas uma pesquisa desenvolvida em Jaguariúna (SP) mostra que a produção no interior paulista é possível e pode abrir espaço para expansão da carcinicultura no estado. O projeto é conduzido pelo zootecnólogo Fábio Sussel, pesquisador do Instituto de Pesca, órgão vinculado à Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo, em parceria com a Fundação de Apoio à Pesquisa Agrícola (Fundag) e iniciativa privada. 🔎 A carcinicultura é o ramo da aquicultura voltado para a criação de crustáceos em cativeiro, com foco principal na produção de camarões. A atividade envolve o cultivo em viveiros ou tanques controlados (marinhos ou de água doce) para fins comerciais Batizado de “Viabilidade Técnica e Econômica da Produção de Camarão Marinho Longe do Mar”, o estudo avalia a criação dos animais em água artificialmente salinizada, em um sistema desenvolvido para produção em larga escala no interior do estado. 🔔 Participe do canal do g1 Campinas no WhatsApp Além da viabilidade técnica da produção no interior paulista, os principais avanços recentes do projeto estão relacionados ao controle da mionecrose infecciosa (NIM), considerada uma das doenças mais severas da carcinicultura mundial. Segundo o pesquisador, os protocolos desenvolvidos ao longo dos últimos anos permitiram reduzir o surgimento da doença e diminuir a mortalidade dos camarões quando os casos aparecem. O trabalho inclui ainda aperfeiçoamentos contínuos de manejo, nutrição e qualidade da água. Criação de camarão marinho no interior de São Paulo avança com pesquisa em Jaguariúna Fábio Sussel Dados do Levantamento Censitário das Unidades de Produção Agropecuária do Estado de São Paulo (Lupa) indicam crescimento da carcinicultura paulista entre os períodos de 2007 a 2008 e de 2016 a 2017. Segundo o painel, o número de Unidades de Produção Agropecuária (UPAs) dedicadas à criação de camarões passou de 118 para 123 no período, aumento de 4,24%. Atualmente, a atividade está presente em 49 municípios paulistas. Nesta reportagem você vai entender: Como a água é adaptada para o cultivo Como a estrutura funciona Quais os principais desafios da produção Por que o projeto é importante A adaptação da água para o cultivo A ideia surgiu da trajetória profissional do pesquisador. Antes de ingressar no Instituto de Pesca, Sussel trabalhou em uma fazenda de camarão no Rio Grande do Norte, entre 2002 e 2003, e desde então acompanha o setor de carcinicultura. Em 2018, ele passou a desenvolver pesquisas voltadas à criação de camarão marinho em sistemas de recirculação de água no interior de São Paulo. 🦐 Entenda: segundo o especialista, o camarão marinho não precisa da mesma salinidade da água do oceano para sobreviver e crescer. A água do mar possui cerca de 33 gramas de sal por litro, mas o cultivo pode ocorrer em níveis bem menores de salinidade. “Não é salinizar apenas com NaCL [fórmula do cloreto de sódio], com sal de cozinha, com o cloreto, mais o sódio, mas sim salinizando e imitando os mesmos sais que tem na água do mar”, explicou o pesquisador. O processo utiliza sais como cloreto, sódio, cálcio, potássio, sulfato e magnésio para reproduzir as condições químicas necessárias ao desenvolvimento dos camarões. Como a estrutura funciona Sistema reutiliza água tratada para produção sustentável de camarões Fábio Sussel A estrutura funciona em um sistema fechado de recirculação chamado RAS (do inglês Recirculating Aquaculture System), em que a mesma água é reutilizada após passar por processos de filtragem biológica, que removem compostos tóxicos dos camarões, como amônia e nitrito. Na fazenda experimental, sete tanques são distribuídos em duas estufas e operam em sistema intensivo de produção. A capacidade é de cerca de 2 mil metros cúbicos de água em circulação. Nesse espaço são desenvolvidas e aprimoradas estratégias que incluem: uso de probióticos para melhorar a qualidade da água; uso de imunomoduladores para fortalecer o sistema imunológico dos camarões e reduzir a incidência de doenças; desenvolvimento de protocolos técnicos de manejo aplicados no dia a dia da produção; aproveitamento de aparas de salmão coletadas em restaurantes de sushi na alimentação dos animais. Diferentemente de experimentos realizados em aquários ou pequenas caixas d’água, os estudos em Jaguariúna acontecem em uma área projetada para simular condições reais de produção comercial. Toda a água utilizada no cultivo é captada da chuva e o sistema foi desenvolvido para evitar o descarte de efluentes no meio ambiente, reduzindo impactos ambientais. O pesquisador explica também que o ciclo de produção varia de 90 a 130 dias. Em condições convencionais, os camarões atingem cerca de 12 gramas em aproximadamente três meses, mas o tempo pode aumentar em sistemas mais densos. Sussel destaca que o diferencial da produção não está em uma única técnica isolada, mas na soma de diversos pequenos fatores. Controle sanitário e produtividade entre os desafios De acordo com Sussel, o desafio não é apenas manter os camarões vivos, mas garantir produtividade em alta densidade. Hoje, os tanques trabalham com cerca de 300 camarões por metro quadrado. "O grande desafio é ter performance, é ter desempenho, é criar em alta densidade, porque é caro esse tipo de cultivo [...] e ainda tem o que fazer com que eles ganhem peso, com que eles cresçam", pontuou. Outra dificuldade técnica da atividade é o controle sanitário. Segundo Sussel, doenças virais representam o maior problema da carcinicultura mundial, já que camarões não desenvolvem memória imunológica e, por isso, não podem ser vacinados. Uma das principais ameaças é a mionecrose infecciosa (NIM), que pode reduzir drasticamente a taxa de sobrevivência dos animais. “Quando essa doença se manifesta, ela me deixa entre 21% e 25% de sobrevivência, o que é muito baixo”, disse. No entanto, afirma que o projeto ajudou a reduzir a incidência quanto os impactos da NIM. Atualmente, a produção da fazenda é de aproximadamente uma tonelada de camarão por ano. Segundo o pesquisador, sem o impacto da doença, a capacidade estimada do sistema seria entre 2 e 2,5 toneladas anuais. ⚠️ No estado de São Paulo, produtores de camarão devem se cadastrar junto à Defesa Agropecuária por meio do sistema Gedave e notificar imediatamente suspeitas de doenças de notificação obrigatória, como a Síndrome da Mancha Branca (WSD) e a Mionecrose Infecciosa (IMN), consideradas endêmicas no país. Por que o projeto é importante Pesquisa em Jaguariúna busca fortalecer a criação de camarões e combater doenças no cultivo Fábio Sussel Para Sussel, o principal objetivo da iniciativa é produzir um camarão premium próximo de grandes centros consumidores, como a região de Campinas, o que reduz a pressão sobre ecossistemas costeiros e amplia oportunidades econômicas para pequenos e médios produtores aquícolas. Mas, apesar dos avanços técnicos, o pesquisador reconhece que produzir camarão marinho no interior ainda é mais caro do que no litoral nordestino. O custo médio de produção no Nordeste gira em torno de R$ 10 por quilo, enquanto no interior paulista chega a aproximadamente R$ 20 por quilo. As regiões litorâneas possuem vantagens naturais, como maior disponibilidade de terra, oferta de água e condições climáticas mais favoráveis ao cultivo. O diferencial do interior, portanto, está na proximidade com grandes centros consumidores, o que permite agregar mais valor ao produto final. Segundo o levantamento LUPA, há registros de criação de camarão em municípios paulistas como Promissão, Cajamar, Cananéia, Ribeirão Preto, Piracicaba, Itatiba, Taubaté, Franca, Piedade, Palmital, Presidente Venceslau e São Miguel Arcanjo, entre outros. Hoje, de acordo com Sussel, existem cerca de dez projetos semelhantes no estado de São Paulo, mas muitos foram interrompidos após o avanço da mionecrose infecciosa registrada em 2020. O projeto em Jaguariúna segue em operação graças à parceria público-privada e ao apoio institucional. Ele também faz uma ressalva: o modelo de Jaguariúna ainda não pode ser considerado totalmente replicável em outras regiões. Atualmente, o trabalho está concentrado no aperfeiçoamento técnico e na validação de protocolos antes da recomendação comercial em larga escala. A expectativa é que, futuramente, projetos hoje desativados possam voltar a operar com base nos resultados obtidos pela pesquisa. Além disso, embora mantenha caráter experimental, o projeto também possui comercialização real da produção. Parte dos camarões é vendida como isca-viva para pesca esportiva, enquanto outra parcela é utilizada e comercializada em eventos de degustação técnica promovidos aos sábados na fazenda experimental. E para manter o projeto ativo, o pesquisador ainda promove eventos gastronômicos e degustações técnicas na fazenda experimental. Consumidores, chefs de cozinha e estudantes participam de experiências que combinam ciência e gastronomia. *Estagiária sob supervisão de Yasmin Castro. 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