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Creatina não reduz inflamação de forma significativa, conclui revisão científica

Creatina não reduz inflamação de forma significativa, conclui revisão científica Adobe Stock A creatina, um dos suplementos mais consumidos por atletas e p...

Creatina não reduz inflamação de forma significativa, conclui revisão científica
Creatina não reduz inflamação de forma significativa, conclui revisão científica (Foto: Reprodução)

Creatina não reduz inflamação de forma significativa, conclui revisão científica Adobe Stock A creatina, um dos suplementos mais consumidos por atletas e praticantes de atividade física, pode não oferecer o benefício anti-inflamatório frequentemente atribuído a ela. Uma revisão sistemática com meta-análise conduzida por pesquisadores da Universidade Estadual Paulista (Unesp) concluiu que não existem evidências consistentes de que a suplementação reduza marcadores inflamatórios em humanos. Embora alguns estudos tenham observado reduções em mediadores inflamatórios específicos após exercícios de resistência extremamente intensos, como corridas de longa distância e provas de meio Ironman, esses benefícios não foram reproduzidos em idosos ou pacientes com doenças crônicas. O trabalho reuniu os resultados de oito ensaios clínicos randomizados (em que os participantes são distribuídos aleatoriamente) e duplo-cegos (quando os participantes e os pesquisadores não sabem quem está recebendo o tratamento e o placebo), considerados o padrão mais rigoroso para avaliação de intervenções em saúde. A análise mostrou que a creatina não promoveu reduções significativas nos principais biomarcadores associados à inflamação crônica de baixo grau, como a proteína C-reativa (PCR) e a interleucina-6 (IL-6). Isso não significa que a creatina não tenha nenhum efeito relacionado à inflamação, informou o coordenador do grupo responsável pela revisão, Vitor Valenti, ao g1. Agora no g1 “Os dados sugerem que seus possíveis benefícios são dependentes do contexto e podem ocorrer principalmente quando existe um estresse físico agudo e muito intenso. Portanto, é importante diferenciar uma possível proteção contra a inflamação provocada por exercício extenuante de uma redução sustentada da inflamação sistêmica”, diz Valenti. Os resultados foram publicados na revista científica Frontiers in Immunology e contaram com apoio da Fapesp. De onde surgiu a ideia de que a creatina seria anti-inflamatória? Segundo os pesquisadores, parte da reputação anti-inflamatória da creatina surgiu a partir de estudos experimentais realizados em animais e em células isoladas em laboratório. Embora algumas dessas pesquisas tenham identificado mecanismos biológicos capazes de reduzir respostas inflamatórias, os resultados não se repetiram de forma consistente quando avaliados em seres humanos. “Muita gente fala que a creatina é anti-inflamatória com base em resultados de estudos feitos em animais ou em células isoladas em laboratório. O problema é que esses resultados da pesquisa básica nem sempre se traduzem em efeitos clínicos em humanos”, afirma Valenti. A própria literatura científica analisada pelos autores apresentou resultados contraditórios, o que motivou a realização da revisão sistemática para reunir e avaliar o conjunto das evidências disponíveis. Qual whey protein é melhor? Concentrado, isolado ou hidrolisado? Veja diferenças e saiba qual escolher Benefícios apareceram apenas em situações muito específicas Apesar do resultado geral negativo, a revisão identificou alguns estudos que apontaram efeitos anti-inflamatórios em atletas submetidos a exercícios de resistência extremamente intensos. Entre os exemplos citados estão pesquisas com corredores e triatletas que utilizaram cerca de 20 gramas de creatina por dia durante cinco dias antes de provas extenuantes. Nesses casos, foram observadas reduções em marcadores como TNF-α, IL-1β e PGE2 após corridas de longa distância e competições de meio Ironman - provas de triatlo de longa distância que correspondem à metade da distância de um Ironman tradicional. “Nessas situações, há grande demanda energética, estresse metabólico e possível dano às células musculares. A creatina pode melhorar a disponibilidade de energia celular e contribuir para a estabilidade das células musculares, reduzindo secundariamente a liberação de alguns mediadores inflamatórios”, destacou Valenti. Em um dos estudos analisados, corredores apresentaram redução de 33,7% nos níveis de TNF-α e de 60,9% na PGE2 após uma corrida de 30 quilômetros. Em outro, triatletas registraram diminuição de TNF-α, IL-1β e PGE2 após a competição. Por que os resultados são diferentes? Segundo os autores, a explicação mais provável é que a creatina não funcione como um anti-inflamatório sistêmico amplo. A hipótese levantada pela revisão é que seus possíveis efeitos ocorram principalmente em contextos de: elevado estresse metabólico; grande dano muscular; exercícios prolongados de resistência. Nessas situações, a suplementação poderia atuar como um agente capaz de proteger células, ajudando a preservar as fibras musculares e reduzindo a intensidade da resposta inflamatória desencadeada pelo esforço extremo. Já nos quadros de inflamação crônica de baixo grau — frequentemente associados ao envelhecimento e a doenças crônicas — os mecanismos biológicos envolvidos são mais complexos e parecem não responder da mesma forma à suplementação. Idosos e pacientes com doenças crônicas não tiveram benefício Os resultados positivos observados em atletas não foram reproduzidos em outras populações. Estudos realizados com pacientes com osteoartrite não encontraram alterações significativas em marcadores como PCR, IL-1β, IL-6 e TNF-α após semanas de suplementação. Situação semelhante foi observada entre idosos submetidos ao treinamento de força. Nesses participantes, a creatina não promoveu diferenças relevantes em marcadores inflamatórios, incluindo PCR e IL-6, quando comparada ao placebo. Também não foram observadas melhorias relacionadas à recuperação muscular ou à redução de danos musculares em alguns protocolos de exercícios resistidos. Valenti explica que a inflamação presente no envelhecimento, na osteoartrite e em outras doenças crônicas é mais complexa e persistente. “Ela envolve tecido adiposo, alterações metabólicas, estresse oxidativo, sistema imunológico e outros mecanismos que não dependem apenas do dano muscular. Assim, a ação da creatina pode ser insuficiente para modificar significativamente alguns marcadores nessas condições”, afirmou. Inflamação nem sempre é um problema Os pesquisadores destacam que a inflamação não deve ser encarada apenas como um processo prejudicial. Durante a prática de exercícios físicos, por exemplo, ocorre uma resposta inflamatória aguda que participa dos mecanismos de reparo, remodelamento e adaptação muscular. Por isso, reduzir indiscriminadamente essa resposta nem sempre seria desejável do ponto de vista fisiológico. A própria IL-6, frequentemente considerada um marcador inflamatório, pode exercer funções benéficas após o exercício, auxiliando na mobilização de energia e na melhora da sensibilidade à insulina. Creatina continua sendo considerada segura Embora a revisão tenha questionado o suposto efeito anti-inflamatório, os autores reforçam que os dados analisados confirmam o bom perfil de segurança da creatina. Nos estudos incluídos, não foram observados eventos adversos clínicos relevantes relacionados à suplementação. Mesmo em protocolos de alta dose, com cerca de 20 gramas por dia durante cinco dias, atletas não apresentaram aumento de problemas como: cãibras; desidratação; desconforto gastrointestinal; diarreia. O mesmo padrão foi observado em idosos e em populações clínicas, nas quais a substância foi considerada bem tolerada e sem efeitos metabólicos ou funcionais desfavoráveis. Limitações do estudo A principal limitação foi o pequeno número de estudos. Embora oito ensaios tenham sido incluídos na revisão sistemática, somente dois estudos puderam ser combinados em cada uma das principais meta-análises de PCR e IL-6. Valenti acrescenta que as amostras também eram pequenas. Um estudo com triatletas, por exemplo, contou com apenas 11 participantes, e o estudo com pacientes com osteoartrite incluiu 18 pessoas. Amostras reduzidas diminuem o poder estatístico e aumentam a possibilidade de um benefício verdadeiro não ser detectado, segundo ele. Também existiram diferenças importantes entre os estudos quanto à idade, ao estado de saúde, à modalidade de exercício, à dose de creatina, à duração da suplementação e ao momento da coleta de sangue. Além disso, nem todos avaliaram os mesmos marcadores inflamatórios. O pesquisador afirma ainda que foram identificadas preocupações relacionadas à perda de participantes, dados ausentes e possível seleção dos resultados apresentados. Por essas razões, a certeza das evidências foi considerada baixa ou muito baixa, e as conclusões devem ser interpretadas com cautela. O que muda para quem usa creatina? Na prática, os pesquisadores afirmam que os resultados não alteram as recomendações atuais para o uso do suplemento. A creatina continua sendo reconhecida por seus efeitos ergogênicos, especialmente relacionados ao aumento da força muscular, da capacidade de realizar exercícios de alta intensidade e da massa livre de gordura. A principal conclusão da revisão é que, com base nas evidências disponíveis atualmente, ela não deve ser considerada um anti-inflamatório sistêmico. Para os autores, ainda são necessários estudos maiores, com mais participantes e protocolos padronizados, para esclarecer se existem efeitos anti-inflamatórios relevantes em contextos específicos. Valenti acrescenta que pessoas com doenças inflamatórias ou alterações persistentes nos exames devem procurar avaliação profissional e não substituir tratamentos, alimentação adequada, prática de atividade física ou acompanhamento médico pela suplementação. Em idosos e pacientes com doenças crônicas, a creatina pode continuar sendo útil para força, massa muscular e funcionalidade, especialmente quando associada ao treinamento de força. Mas não há evidência suficiente para afirmar que essas pessoas terão redução relevante da inflamação sistêmica, segundo Valenti. “A grande importância dessa revisão é mostrar que ainda há poucos ensaios clínicos sobre o tema e provocar a comunidade científica a avançar nessa área”, conclui Valenti.