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Milhões de abelhas podem viver sob a terra; entenda como isso é possível
Imagem de uma Andrena regularis
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Quando pensamos em abelhas, a imagem mais comum é a de uma colmeia pendurada em uma árvore ou instala...
11/06/2026 09:52
Milhões de abelhas podem viver sob a terra; entenda como isso é possível (Foto: Reprodução)
Imagem de uma Andrena regularis
bndanforth / iNaturalist
Quando pensamos em abelhas, a imagem mais comum é a de uma colmeia pendurada em uma árvore ou instalada em uma caixa de criação. Mas parte desses importantes polinizadores vive em um ambiente muito menos visível: o subsolo.
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O tema ganhou destaque após a descoberta de milhões de abelhas em uma área de cemitério em Nova York, nos EUA. O caso chamou a atenção para um universo pouco conhecido, formado por espécies que constroem seus ninhos debaixo da terra e desempenham um papel fundamental na manutenção dos ecossistemas.
Para entender como funcionam essas estruturas subterrâneas, o Terra da Gente conversou com Fabio Santos do Nascimento, professor do Departamento de Biologia da USP de Ribeirão Preto e especialista em insetos.
Segundo o pesquisador, nidificar no solo representa a condição mais ancestral das abelhas.
"Em abelhas, os ninhos subterrâneos são a condição mais ancestral ou 'primitiva'. Há milhões de anos, o ancestral das abelhas, muito parecido com uma vespa, fazia seus ninhos em cavidades ou escavava túneis para depositar seus ovos em galerias", explica.
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Os ninhos construídos acima do solo ou em cavidades não subterrâneas surgiram mais tarde na história evolutiva do grupo.
Esse hábito ancestral permanece presente em diversas espécies encontradas atualmente no Brasil. Entre as abelhas sem ferrão, conhecidas cientificamente como meliponíneos, cerca de 50 espécies nidificam no solo. As demais, aproximadamente 550 espécies descritas, utilizam ocos de árvores, cavidades pré-existentes ou estruturas aéreas para instalar suas colônias.
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Arquitetura subterrânea
As estruturas construídas sob a terra variam conforme a espécie.
Nas abelhas solitárias, os ninhos costumam ser formados por uma galeria principal ligada a pequenos túneis. Nesses compartimentos, a fêmea deposita os ovos e deixa o alimento necessário para o desenvolvimento das futuras larvas.
Estrutura de ninhos subterrâneos de abelhas
Arquivo pessoal / Fabio Santos do Nascimento
Já entre as abelhas sem ferrão que vivem no solo, a organização pode ser muito mais complexa.
Os ninhos possuem uma entrada principal ligada a um túnel de acesso que conduz à câmara onde ficam as células de cria e os potes utilizados para armazenar mel e pólen.
Toda essa estrutura recebe proteção adicional por meio de uma ou mais camadas de batume, material produzido a partir da mistura de cera e barro. Esse revestimento ajuda a isolar o interior do ninho da umidade e das variações de temperatura do solo.
Uma estratégia aperfeiçoada ao longo de milhões de anos
Indivíduo da espécie Andrena regularis
mantises / iNaturalist
As abelhas existem há milhões de anos e atravessaram diferentes períodos de mudanças ambientais ao longo de sua evolução.
De acordo com o pesquisador, a arquitetura dos ninhos, os ciclos biológicos e os comportamentos defensivos foram sendo aperfeiçoados ao longo desse processo.
"Podemos dizer que a arquitetura bem protegida dos ninhos, seus ciclos biológicos e seu comportamento defensivo foram aprimorados nesses milhões de anos", afirma.
Entre as abelhas sem ferrão, a capacidade de armazenar alimento em potes de mel e pólen também funciona como uma importante estratégia de sobrevivência. Essas reservas ajudam as colônias a enfrentar períodos mais críticos, marcados por condições climáticas desfavoráveis.
Ameaças crescentes
Apesar de sua longa história evolutiva, as abelhas enfrentam pressões cada vez maiores provocadas pelas atividades humanas.
A expansão urbana reduz os espaços disponíveis para a nidificação, enquanto a mecanização crescente dos solos em áreas agrícolas altera ambientes utilizados por diversas espécies.
"As abelhas estão perdendo espaço para a crescente urbanização e também para a mecanização crescente dos solos em espaços agrícolas", alerta Nascimento.
Por isso, a preservação de fragmentos naturais, matas e áreas protegidas é considerada essencial para a manutenção dessas populações.
Além disso, a importância das abelhas vai muito além da produção de mel. A polinização realizada por esses insetos é um serviço ecossistêmico fundamental para inúmeras plantas nativas e também para diversas culturas agrícolas.
Imagem ampliada de uma Andrena regularis
cedarbee / iNaturalist
Segundo o pesquisador, muitas espécies vegetais dependem de abelhas específicas para completar seu processo de reprodução. A redução dessas populações pode provocar impactos significativos em cadeias ecológicas construídas ao longo de milhões de anos de interação entre plantas e polinizadores.
"A ausência das abelhas certamente causaria um problema ecológico significativo, pois várias espécies de plantas dependem exclusivamente de abelhas específicas para sua polinização", destaca.
Um sinal positivo no quintal
O caso registrado no cemitério dos EUA ilustra o que pode acontecer quando uma espécie encontra condições favoráveis para se estabelecer.
Segundo o pesquisador, a abelha solitária Andrena regularis encontrou no local um ambiente adequado para a nidificação, com vegetação disponível e baixa movimentação de pessoas. Essas características favoreceram uma expansão populacional incomum.
Por isso, encontrar a entrada de um ninho no quintal, em um terreno ou em outra área próxima à residência pode ser visto como um sinal positivo.
De acordo com o especialista, a presença dessas abelhas indica que o ambiente continua oferecendo condições para a sobrevivência de uma espécie nativa importante para o equilíbrio ecológico.
"A pessoa pode se considerar com sorte, pois está mantendo uma espécie nativa que possui seu papel no ecossistema", conclui.
Além disso, as gerações seguintes costumam reutilizar os mesmos locais de nidificação, mantendo o ciclo de vida desses polinizadores que ajudam a sustentar a biodiversidade dos biomas brasileiros.
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