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Pesquisadores localizam cemitério de baleias no Índico que guarda fósseis de até 5,3 milhões de anos
Fósseis de crânios de três baleias-de-bico recuperados do fundo do mar. A imagem mostra duas espécies extintas de baleia-de-bico, Pterocetus diamantinae (no...
10/06/2026 12:00
Pesquisadores localizam cemitério de baleias no Índico que guarda fósseis de até 5,3 milhões de anos (Foto: Reprodução)
Fósseis de crânios de três baleias-de-bico recuperados do fundo do mar. A imagem mostra duas espécies extintas de baleia-de-bico, Pterocetus diamantinae (nova espécie para a ciência, no topo) e Izikoziphius rossi (o segundo crânio), além da baleia-de-bico-de-Andrews Mesoplodon bowdoini (dois crânios na parte inferior), uma espécie ainda existente.
Global TREnD/IDSSE/Divulgação
Um vasto cemitério de baleias escondido nas profundezas do Oceano Índico revelou uma história que atravessa milhões de anos. Pesquisadores da Academia Chinesa de Ciências descobriram uma necrópole submarina com fósseis e carcaças distribuídos ao longo de cerca de 1.200 quilômetros na Zona Diamantina, uma região entre a Austrália e a Antártida.
O estudo, publicado na revista científica "Nature", identificou 485 locais contendo restos de cetáceos e cinco quedas de baleias ainda ativas — nome dado às carcaças que afundam até o leito oceânico e passam a sustentar comunidades inteiras de organismos.
A descoberta pode representar o mais profundo e extenso acúmulo conhecido de fósseis e carcaças de baleias já registrado, além de oferecer uma janela inédita para a evolução desses mamíferos marinhos ao longo dos últimos 5,3 milhões de anos.
O que é uma "queda de baleia"
Quando uma baleia morre e afunda, sua carcaça leva para o fundo do mar uma enorme quantidade de matéria orgânica. Em ambientes extremamente pobres em alimento, esses restos funcionam como verdadeiros oásis biológicos.
Agora no g1
Os pesquisadores encontraram cinco comunidades ativas associadas a carcaças localizadas entre 4.625 e 6.789 metros de profundidade. Algumas delas eram dominadas por vermes que perfuram ossos, estrelas-serpente, moluscos e bactérias capazes de obter energia por processos químicos, sem depender da luz solar.
Ao todo, foram documentados 35 grupos de macrofauna. Segundo os autores, grande parte das espécies encontradas pode ser nova para a ciência.
Além disso, os cientistas registraram organismos em profundidades muito superiores às conhecidas anteriormente para esse tipo de ecossistema. As quedas de baleias da Zona Diamantina ampliam em mais de 2.500 metros o limite conhecido desses habitats.
Recuperação de ossos fossilizados de baleia utilizando o braço manipulador do submersível chinês Fendouzhe no fundo do mar da Zona Diamantina.
Global TREnD/IDSSE/Divulgação
Fósseis com até 5,3 milhões de anos
Para determinar a idade dos restos encontrados, a equipe analisou a composição isotópica de 33 fósseis.
Os resultados indicaram idades entre aproximadamente 120 mil anos e 5,26 milhões de anos. O fóssil mais antigo pertence a uma baleia-bicuda extinta do gênero Pterocetus.
Segundo os pesquisadores, isso mostra que quedas de baleias ocorrem na região desde pelo menos o início do Plioceno, época em que o clima global era significativamente mais quente do que o atual.
A equipe também identificou fósseis de espécies modernas de baleias-bicudas que ainda habitam o Oceano Índico, sugerindo uma continuidade ecológica impressionante ao longo de milhões de anos.
Mapa do "cemitério de baleias" localizado em estudo
Divulgação/Nature
Nova espécie de baleia extinta
Entre os achados está uma nova espécie batizada de Pterocetus diamantinae.
O fóssil consiste em parte do crânio de uma baleia-bicuda extinta encontrada a quase 6.900 metros de profundidade. A análise anatômica mostrou características suficientemente distintas para classificá-la como uma espécie até então desconhecida.
A descoberta amplia o conhecimento sobre a evolução das baleias-bicudas, um dos grupos mais enigmáticos de cetáceos.
Por que tantas baleias morreram ali?
A concentração extraordinária de restos de baleias levou os pesquisadores a investigar a origem da necrópole.
A principal hipótese envolve a combinação de vários fatores. A região está situada em uma rota frequentada por baleias migratórias e abriga condições favoráveis para alimentação de baleias-bicudas, que realizam alguns dos mergulhos mais profundos do reino animal.
Além disso, a topografia em forma de vale pode funcionar como uma armadilha natural para carcaças afundadas. Outro fator importante é a taxa extremamente baixa de sedimentação da região, que permite que os ossos permaneçam expostos e preservados por centenas de milhares ou até milhões de anos.
Segundo os autores, a combinação desses elementos pode explicar a formação do enorme depósito fóssil.
Impacto da descoberta
Os cientistas afirmam que a necrópole transforma a compreensão dos ecossistemas das grandes profundezas.
As quedas de baleias podem funcionar como pontos de conexão entre habitats extremos, como fontes hidrotermais e exsudações frias do fundo oceânico, ajudando organismos especializados a se dispersarem por longas distâncias.
Além disso, o local constitui um raro arquivo natural da história evolutiva das baleias-bicudas. Como esses animais são pouco observados vivos e frequentemente conhecidos apenas por encalhes ocasionais, os fósseis preservados oferecem uma oportunidade única para reconstruir sua evolução, distribuição e ecologia ao longo de milhões de anos.
Como foi feito o estudo?
Os pesquisadores realizaram 32 mergulhos com o submarino tripulado Fendouzhe entre fevereiro e março de 2023, percorrendo cerca de 1.200 quilômetros da Zona Diamantina. Foram registrados 485 locais contendo fósseis ou carcaças e coletadas amostras para análises biológicas, anatômicas e geoquímicas.
A idade dos fósseis foi estimada por datação isotópica de estrôncio em 33 espécimes. Entre os pontos fortes estão o acesso inédito a profundidades de até 7.000 metros e a combinação de paleontologia, ecologia e genética. Como ressalvas, apenas uma pequena fração da área total foi observada diretamente, e as hipóteses para explicar a concentração de baleias na região permanecem inferenciais, sem comprovação direta.