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Por que tantas pessoas relatam ter visões pouco antes de morrer

Divulgação Dormir bem é cuidar do corpo, da mente e do metabolismo. - Divulgação Florence está sentada à mesa da cozinha. O marido está ali, a filha tam...

Por que tantas pessoas relatam ter visões pouco antes de morrer
Por que tantas pessoas relatam ter visões pouco antes de morrer (Foto: Reprodução)

Divulgação Dormir bem é cuidar do corpo, da mente e do metabolismo. - Divulgação Florence está sentada à mesa da cozinha. O marido está ali, a filha também. Eles riem juntos, jantam — como antigamente. Com uma diferença: os dois — marido e filha — estão mortos há anos. LEIA TAMBÉM: Sensação de sair do próprio corpo: viagem astral é relatada por 1 em cada 5 brasileiros em pesquisa sobre experiências incomuns LEIA TAMBÉM: As visões da experiência de quase morte que mexem na forma como alguém encara a vida "Parecia tão real", relembraria Florence mais tarde. "Como se nunca tivéssemos sido separados." Aquilo não era um sonho comum, e sim um encontro, insistiu. E assegurou que nunca teve sonhos tão vívidos assim antes. Não sentiu medo, e sim uma profunda tranquilidade — a certeza de que voltará a ver os dois. Ela morreu cinco dias depois. Muitas pessoas relatam experiências assim no fim da vida. Na maioria das vezes, elas vêm em sonhos; outras vezes, como visões em estado de vigília. Para quem as vivencia, costumam parecer mais reais do que sonhos comuns; para quem está de fora, podem soar estranhas. A ciência se refere a essas experiências como "End‑of‑Life Dreams and Visions” (ELDVs), ou sonhos e visões do fim da vida. Durante muito tempo, a medicina as tratou sobretudo como manifestação de confusão súbita/delírio ou efeito de medicamentos. Hoje, porém, está claro que essa explicação é insuficiente. VEJA TAMBÉM 7 formas cientificamente comprovadas de dormir melhor Estudo mostra: nove em cada dez relatam sonhos no fim da vida O neurobiólogo e médico americano de cuidados paliativos Christopher Kerr estuda sonhos e visões no fim da vida desde o final da década de 1990. Os exemplos descritos neste artigo foram extraídos de relatos documentados por ele em sua pesquisa sobre cuidados paliativos. Ao longo de cerca de dez anos, ele e sua equipe acompanharam até a morte mais de 1.400 pacientes em unidades de cuidados paliativos — mas os entrevistavam apenas quando estavam lúcidos e sem sinais de delírio. O resultado: cerca de 90% relataram pelo menos uma vez sonhos ou visões desse tipo — independentemente de idade, origem ou condição social. Kerr descreve essas pessoas como "extraordinariamente lúcidas e atentas". Elas não pareciam confusas, e sim focadas, despertas, introspectivas. Elisa Rabitti, psicóloga e autora principal de um estudo italiano recente sobre ELDVs, reforça esse ponto: "Os sonhos do fim da vida costumam ocorrer em pessoas capazes de relatar suas experiências de forma coerente — com plena atenção e orientação". Viagens, reencontros e pertencimento são temas frequentes nos sonhos Os sonhos são vívidos, carregados de significado — e aumentam em frequência e intensidade à medida que a morte se aproxima. Com frequência, incluem encontros com parentes ou animais de estimação falecidos, que retornam para oferecer conforto. Muitos sonhos giram em torno de viagens, de preparativos, de um "estar a caminho". Relações são reativadas e conflitos, resolvidos. Culpa e arrependimento vêm à tona. "Quanto mais perto as pessoas chegam da morte, mais esses sonhos envolvem os falecidos", afirma Kerr. Tempo e distância espacial perdem a importância. Religião quase não tem papel nas visões O fato de alguém ser religioso ou não parece ter pouca relevância. Nas pesquisas de Kerr, pessoas religiosas e não religiosas relatam vivências semelhantes. No centro delas estão temas universais como amor, vínculo e perdão — não dogmas. Os ELDVs não devem ser confundidos com experiências de quase‑morte. Estas costumam surgir de forma abrupta em situações extremas agudas. Já os sonhos do fim da vida se desenvolvem ao longo de dias ou semanas. São menos espetaculares — menos marcados por luzes ou túneis — e mais voltados às relações. Por isso, Kerr não os descreve como revelações, mas como momentos de ordenação interior: a sensação de, no fim da vida, estar novamente "organizado" ou "recomposto". Consolo (ou confronto) necessário A maioria dessas experiências é reconfortante. Nos estudos de Kerr, elas foram descritas predominantemente como calmantes e cheias de sentido. Algumas, porém, também podem ser angustiantes ou perturbadoras. Justamente esses sonhos, diz Kerr, podem ser especialmente transformadores, porque trazem à tona questões não resolvidas, como sentimentos de culpa ou arrependimento. Um exemplo é Sierra. Ela tem pouco mais de vinte anos, um filho pequeno e uma doença incurável. Por muito tempo, não consegue aceitar o diagnóstico. As conversas com a equipe médica não a alcançam. Em uma visão, Sierra vê o avô falecido. Ele lhe diz que tem muito orgulho dela, e que está tudo bem. Depois disso, algo muda. Sierra encontra a paz. Uma semana depois, ela morre. Para Kerr, esses sonhos não são produtos aleatórios do cérebro. "Essas experiências oferecem uma possibilidade terapêutica natural", afirma. Elas alcançam as pessoas onde a linguagem médica muitas vezes esbarra em seus limites. Rabitti também ressalta: os sonhos são um encontro menos ameaçador com a morte, diferente de conversas diretas sobre o tema, que podem sobrecarregar. Por que os sonhos ficam mais intensos no fim da vida Os ELDVs surgem com frequência nos últimos dias ou semanas de vida por razões biológicas. Kerr descreve o processo de morrer como uma fase de sono crescente. "Ninguém morre acordado", observa. Com ritmos de sono‑vigília alterados, o olhar se volta mais para dentro. As exigências externas perdem importância. "As pessoas tendem a pensar nas coisas mais importantes, e isso geralmente são nossos relacionamentos", diz Kerr. Do ponto de vista biológico, é possível explicar por que esses sonhos surgem, afirma ele. Mas processos cerebrais, sozinhos, não explicam por que esses sonhos são reconfortantes, tornam conflitos visíveis ou ajudam a organizar a própria vida. Quanto ao momento em que ocorrem, Rabitti alerta contra interpretações simplificadas. Sonhos do fim da vida não são prenúncios confiáveis da morte. Sonhos vívidos também podem ser expressão de uma revisão normal da vida — sem relação direta com o processo de morrer. "Os sonhos não preveem a morte — é mais o contrário: a morte iminente pode estar associada a certos sonhos", diz ela. "Correlação não é prova de causalidade." O que esses sonhos significam para os familiares O impacto dos ELDVs não termina com a morte. Estudos mostram que familiares que tomam conhecimento desses sonhos ou os vivenciam junto com o doente muitas vezes lidam melhor com a perda e elaboram o luto de forma mais serena. É o caso de Jennifer. Seu companheiro gravemente doente, Patrick, sonha com a avó falecida, que lhe revela o ingrediente que faltava em um molho que ele nunca conseguira reproduzir: uma colher de chá de açúcar. Apesar de já estar muito debilitado, ele cozinha a receita mais uma vez junto com Jennifer. Pouco depois, morre. Para Kerr, é justamente aí que se percebe por que esses sonhos importam. "Quando essas experiências são explicadas corretamente, elas têm valor", diz ele. A morte deixa de ser vista apenas como algo biológico, marcado por decadência e sofrimento, e passa a ser percebida também como algo que pode conter amor e sentido. Transmitir essa perspectiva é fundamental. Jennifer viveu isso na prática. "Patrick tinha encontrado a paz", diz ela. "E, sinceramente: se o último sonho da sua vida é sobre molho de espaguete, dificilmente existe algo mais reconfortante." Para ela, esse sonho foi um alívio. Ela soube: Patrick estava pronto para partir. "Esterilizamos o morrer" Para Kerr, os ELDVs revelam uma dimensão da morte que a medicina moderna negligenciou por muito tempo. "Morrer não é o fracasso de órgãos isolados, mas o encerramento de uma vida", afirma. Nas gerações passadas, o ato de morrer foi cada vez mais afastado do cotidiano: das casas, das famílias, da comunidade. "Esterilizamos o morrer", diz Kerr. O resultado é um abismo entre o que as pessoas desejam para o fim da vida — como proximidade e familiaridade — e o que muitas vezes vivenciam: uma medicina que trata o morrer sobretudo como um processo técnico e organizacional. O fato de sonhos e visões no fim da vida voltarem a receber mais atenção hoje é, para Kerr, uma reação a esse vazio. Talvez esses sonhos falem menos sobre como morremos e mais sobre o que nos sustenta até o fim: relações, proximidade — e a necessidade de que alguém esteja presente.